Para o sorriso que me despe – Brunaidelfonsa


Ela me pergunta sobre paixão, eu digo que machuca. Ela pergunta sobre amor, eu digo que dilacera. Entre suas perguntas, eu me pergunto sobre como é tão fácil me perder ali. Nos perguntamos sobre os quês da vida. Eu lhe digo que amor é fogo e só pode mesmo é queimar, mas posso lhe afirmar que o fogo as vezes dá vida. Ela num tom pensativo diz que o sol é fogo ardente no universo visível as nossas almas frias em constante conflito. Eu lhe digo que seu olhar é feito sol que ilumina o meu dia e queima minha pele. Afirmações.

Ela pergunta se eu a amo, colocando minha mão entre suas pernas. Eu sussurro em seu ouvido “você me dilacera”. Ela deixa escapar um gemido. Eu peço silêncio entrelaçado minhas unhas entre seus cabelos. Ela diz “nem tudo é poesia”, e simplesmente me olha com aquele sorriso covarde (que me desestrutura totalmente- mas isso ela não pode saber, me deixaria totalmente vulnerável a ela, bastaria aquele sorriso para me convencer a qualquer coisa. Eu seria capaz de fazer com que duas paralelas se cruzassem no infinito, abriria mão de minha sanidade, entraria em discordância com a verdade fundamental cartesiana…). O desdém em sua voz faz meus olhos arderem em fogo. Minha mão desce pelas coxas. Respondo, com um descaso que orna com sua fala, digo que se ela não quer meus lirismos, existem outras interessadas (não estava falando sério, — óbvio que ela sabia disso — afinal, ela quem despertava aquela parte de mim).

Ela me puxou para perto. Eu segui o caminho de seu pescoço (percebi o arrepio), cheguei na clavícula e nem sei explicar o que senti, meu corpo esquentou por dentro, pensar era desnecessário. Entre suas pernas minha consciência já não afirma minha existência. Minha noção de tempo mudou. Nem linear, nem cíclica, nem dimensional, talvez um enlaçamento louco em que as três me mostram um infinito intangível. O universo inteiro numa sacada, meu maior êxtase, contido entre linhas, que me pareciam escrever uma poesia única. Uma poesia que nem Shakespeare, Camões, Alphonsus ou Drummond poderiam ter escrito. Era quase perfeição, só não era, porque tudo que parece perfeito decepciona e ela era indubitavelmente deslumbrante, era uma luz na escuridão, um regozijo em meio à exaustão que me sucumbia…Nunca uma dúvida, mas uma de minhas únicas certezas, por isso não me importaria de passar dia após dia reconquistando-a, para garantir que em sua vida crescessem flores que alegrassem seu caminho e preservassem aquele brilho inconfundível no seu olhar. Corpos e almas que la…te…jam em sincronia. A minha alma em movimento contrariou suas tendências se aquietando em seu olhar.

“Você me dilacera”, ela diz com o corpo tremulando e a coluna arqueada. E naquele instante nossos olhares se cruzam, na verdade, além, energias. Duas paralelas em dois universos não tão distantes, se cruzaram, por uma fração de segundos.

Bruna Cristina

You might also like

Pin It on Pinterest

Share This

Share this post with your friends!