Gabba Gabba Hey – Rodrigo Santos


Em algum momento eu soube seu nome, mas acho que desde sempre a chamei de Ramones. Ela era a cara da banda, aquela pele quase transparente, os cabelos negros como asfalto mole, escorrendo sobre ombros ossudos, olheiras e unhas negras, corpo esguio e desengonçado. Logo de cara pensei naqueles caras magrelos, e depois que a conheci melhor percebi que era um dos apelidos mais coerentes que eu havia achado para alguém. Tudo na vida pra ela era hey ho let´s go, rock and roll na veia, destilados direto da garrafa e Hollywood vermelho, que tirava de um maço sempre amassado no bolso da frente. Tinha que esticar a calça pro cigarro sair, e acabava comprimindo a pouca barriga e descendo um pouco o cós da calça, mostrando sua cueca. Algodão, faixa com nome do fabricante, pelos dissidentes subindo em busca do umbigo.

Mas não se enganem pela minha descrição canhestra, baseada apenas em memórias afetivas: ela era gata. Seus olhos eram astutos, profundos, e transmitiam uma força que destoava de seu perfil quase andrógino. Seios, sim, nem tão pequenos quanto ela tentava apertar no top escondido sob a camisa preta do Iron Maiden com as mangas cortadas; apenas cabiam na mão e na boca.

– Acho suas mãos tão engraçadas — ela dizia coisas sem sentido assim enquanto estávamos na cama — seus dedos são longos e finos e ossudos, como patas de aranha! — e se ria sem parar. Eu a achava linda assim, nua, de pernas cruzadas, ligeiramente encurvada, com as costelas marcadas na pele branca e as veias roxas. Ela então fazia uma meia ponte, e buscava o maço amassado de Hollywood na mesinha de cabeceira.

É, a gente trepava ocasionalmente e eu a continuava chamando de Ramones. Ela ria, dentes curtos, e achava legal quando eu a chamava assim — ela achava tudo legal. “Gabba gabba hey. Você tem leite condensado aqui nessa casa?”, vasculhando os meus armários da cozinha. Andava só de calcinhas de pano para cima e para baixo, ancas largas de falsa magra, bunda tímida naquele excesso de algodão.

– A vida não tem sentido, cara, a gente fica rodando por aí até cair na cova rasa. É meio que uma roda de headbanger, entende? Você acredita que todos os personagens de Caverna do Dragão estão mortos, e o Vingador é o diabo? Vem, deixa eu chupar você mais um pouco — e assim seguíamos, suas falas desconexas, sua silhueta de espantalho, suas olheiras. Eu gostava da sua companhia, mas não estava a fim de relacionamento, Priscila tinha acabado de sair daquele apartamento deixando pra trás apenas o seu incômodo fantasma cheirando a poliflor de lavanda e eucalipto.

Nunca soube o que ela fazia da vida, ou onde morava, era um “alô” na madrugada, algumas long necks e o cinzeiro cheio de manhã vendo-a sumir no elevador. Minha vida então assumiu novas cores, eu parei com as roupas pretas e cerveja no gargalo, e Ramones teria sido apenas mais uma lembrança agradável (diferente do poliflor), se naquele dia ela não cruzasse novamente meu caminho.

– Você está tão diferente nesse jaleco — foi a primeira estúpida coisa que me veio à mente.

– Calma. Você perdeu muito sangue…

– Eu nunca imaginei que você estudasse medicina.

– Não sou médica, sou enfermeira. E você também mudou — ela abriu um meio sorriso. — Algum telefone para quem eu possa ligar?

– Não… Cadê os piercings?

– Não posso trabalhar de piercing. Você fez a tatuagem?

– Qual, a do grou? Não, não… Fiz um rato, na panturrilha. — Olhei para a minha perna e não vi o rato, apenas sangue escuro. O carro tinha dado três piruetas no ar antes de deslizar com o teto em uma chuva de faíscas na estrada. Cadê o rato? O rato era meu signo no horóscopo chinês, lembro de quando eu o fiz. — Cadê minha perna, Ramones?

– Não fala. — ela meteu uma seringa no meu braço, e a última coisa que sei que falei foi um “gabba gabba hey” meio engrolado.

– Bom dia, flor do dia.

Quarto asséptico, flores murchas na jarra, comida de hospital.

– Quanto tempo fiquei fora do ar?

– Dois dias. Você não tem mesmo para quem a gente ligar? Entramos em contato com o plano, a transferência já pode ser feita.

– Transferência? Do que você tá falando?

– Você lembra do que aconteceu?

– Carro capotou, me fudi por completo.

– Isso. Daí você deu entrada na emergência aqui do hospital. Hospital público, né? Mas acho que hoje você dá um passeio de ambulância pra um quarto com ar condicionado e flores melhores do que essa.

Era outra Ramones, era a mesma Ramones que fumava aqueles cigarros amassados de calcinha de algodão mexendo no meu som.

– Você está linda.

– Bom, não posso dizer o mesmo de você… Tua cara tá um lixo. Mas esses hematomas vão sumir, são decorrentes da pancada na cabeça. Qualquer porrada na cabeça causa esse extravasamento pra face. É normal.

– Você viu o rato?

– Que rato?

– O rato do meu signo, a tatuagem. A tatuagem na perna.

– Marília… — senti a perna coçar e levei a mão antes que ela falasse. — Nós tivemos que amputar a sua perna. Por isso você ficou esse tempo todo aqui.

Olhei pra baixo e vi. Onde deveria ter um morrinho sob o lençol, a partir do joelho, não tinha nada. Nem perna, nem panturrilha, nem rato.

– Tuas roupas estão ali na cadeira, eu levei pra minha casa, lavei e passei. No bolso detrás da calça tem meu cartão. Me liga.

Ela me deu um beijo perto da boca, ainda sem força pra proferir palavra alguma. “Gabba gabba hey, babe.”, e foi saindo do quarto com aquela prancheta na mão. Linda, de jaleco.

– Hey! Qual o seu nome mesmo?

– Suzy. — e sorriu, acenando com cabeça. — Me liga depois que sua cabeça estiver de boa.

You might also like

Pin It on Pinterest

Share This

Share this post with your friends!