Sapata – escrevamargot – Medium


– Sapata! — Ela dizia em voz alta, enquanto as outras meninas riam com satisfação.

– Se você gosta de homem, então beija a boca do Victor e prova.

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Eu fechava os olhos, respirava fundo e dava um selinho inocente no Victor, que me olhava assustado. Um selinho no Victor era o suficiente para passar dois dias sem ser atormentada. E logo essa cena voltaria a acontecer, ou pior.

-Vou pra casa. — Tentando esconder meu sofrimento, sem sucesso, com uma voz triste.

E assim, eu subia as escadas do prédio, fazendo um esforço descomunal pra parecer feliz antes de abrir a porta de casa. Pra não incomodar ninguém com essa luta que era só minha. Passavam-se dois ou três dias em que eu fingia estar sem vontade de brincar. Fingia não ouvir os gritos das crianças jogando queimada em baixo da minha varanda. Geralmente lá pelo quarto dia, a inocência dos nove anos de idade falava mais alto, e eu pegava minha bola e minha sandália, respirava fundo com esperança e descia correndo.

– Posso brincar? — eu perguntava.

– Chegou a sapata! — Elas comentavam, rindo como se aquele beijo forçado não fosse o suficiente.

E nunca era. Toda semana eu precisava passar por um novo beijo forçado, alguns puxões de cabelo, alguma mentira inventada para que ninguém quisesse andar comigo. Era muito pra mim aos nove anos de idade. Aos poucos fui me resignando. Perdi a vontade de ser criança perto delas. Aprendi a ficar até mais tarde na escola, pois lá eu tinha amigos. E eu nem sabia o que era “sapata”. Eu só sabia que eu não era, nem queria ser. Porque se o preço era ficar sozinha, ou ser humilhada, eu preferia ser como elas e passar despercebida.

– O que é sapata? — Perguntei, uma vez, a uma freira da minha escola.

– Sapato, você quis dizer?

E eu desisti de perguntar. Talvez nem os adultos soubessem o que era. Ou se eles sabiam, devia ser algo muito feio. Feio o suficiente pra ninguém querer ser.

O tempo foi passando. Não me lembro como foi que deixei isso escondido de mim mesma por tantos anos. Não me lembro quando foi que aquelas meninas deixaram de me assustar e começaram a parecer medíocres. Mas lembro daquela sexta-feira, aos 13 anos, quando chamei uma colega de classe pra estudar comigo na minha casa.

– Você já beijou alguma menina? — Ela me perguntou sorrindo.

– Algumas vezes, quando mais nova, dei uns selinhos numa colega. A gente ensaiava pra não errar quando fosse beijar algum menino da turma.

Ela riu. Eu fiquei muito envergonhada. Esperei ser chamada de sapata mais uma vez. Mas ela não chamou. Lembro-me do seu corpo indo a minha direção, lembro-me de um beijo. O primeiro beijo consciente de ser beijo. A primeira vez que beijei uma menina sem imaginar estar ensaiando para beijar um menino. A primeira vez que eu quis beijar uma menina e assim o fiz.

– Eu acho que você gosta de meninas. — Ela disse isso sorrindo, pouco antes de ir embora.

E eu passei o resto do dia assustada. Olhava-me no espelho, imaginando que, a partir daquele momento, eu deveria evitar sair de casa. Eu deveria sair da escola religiosa. Eu deveria nunca mais olhar pra aquela menina, que eu beijei porque eu quis. E como era bom beijar por vontade, sem pessoas ao meu redor, gritando, me obrigando a provar algo que eu nem sabia que precisava provar. Mas como era grande a culpa de beijar uma menina, por vontade, sem estar ensaiando para beijar um menino. Mas eu não queria ser sapata, eu sabia que teria que enfrentar muitos gritos e risadas. Que teria que passar muitos dias escondida. Ou beijar muitos meninos sem vontade. Ou só beijar uma menina se fosse escondida. Eu não queria! E tentei não ser. Por alguns — muitos — anos, deixei aquilo guardado em mim. Comentava apenas com uma melhor amiga, que também gostava de beijar meninas, mas não podia gostar. Costumávamos chegar mais cedo na escola todos os dias, e sonhar juntas sobre o dia em que beijaríamos uma menina sem medo. Sem nos esconder nos cantos da escola, ou no beco do condomínio, ou no fundo do armário. Ela compartilhava comigo os filmes de mulheres que se amavam. E eu assistia escondida, de madrugada, mulheres compartilhando histórias sublimes,.Nesse período, amei algumas mulheres, em silêncio. Na maioria das vezes, nem elas sabiam. E eu as amava. Sonhava em poder amar uma mulher em voz alta. E enquanto sonhava com isso, tentava amar homens.

– Você já foi mais feminina! — disse meu professor de português na frente de toda a turma.

Saí de lá chorando. Dois amigos, que amavam meninos em silêncio, seguraram minha mão. E desde esse dia até o último dia em que pisamos na escola, eles seguraram minha mão com força. Não me deixando sucumbir diante do medo e das agressões silenciosas.

– Você vai namorar um menino? Não acredito. — Eles disseram, com medo do que eu estava fazendo comigo mesma.

– Eu sou bi, devo ser. Ou posso ser hétero e só estar confusa! — Repeti essa frase mil vezes mil, pra eles e pra mim mesma.

Namorei uns dois ou três caras. Confesso que em alguns dias fui feliz. Por alguns dias me senti segura. Em outros, me senti vazia.

Minha amiga, aquela que compartilhava as manhãs e os filmes lésbicos comigo, me dizia que sabia que uma hora eu ia conseguir. Ela dizia que não dá pra mentir pra si mesma por tanto tempo. E acompanhava meus passos pesados por aquele caminho que era só meu.

– Sapata!!! — Disse ela, sorrindo enquanto as outras pessoas sorriam junto, num bar após minha primeira semana de aula na universidade.

Mas não era um sorriso sádico, ninguém estava me forçando a beijar um menino. Eu não precisava subir as escadas pra minha casa ensaiando uma alegria falsa para não ter que compartilhar minha dor com mais ninguém. Ela segurava um vinho na mão, sentada numa mesa de plástico enquanto sorria pra mim.

– Vamos ver o bairro do alto, sobe comigo até o décimo quarto andar. — ela me chamou, enquanto todo mundo sorria, prestando atenção em outras conversas que não a nossa.

Eu subi. Ela me beijou, no décimo quarto andar. Um beijo com gosto de vinho barato, aqueles de 10 reais — no máximo.

– Você gosta mesmo de meninos? — perguntou.

– Acho que sim. Mas não como eu gosto de meninas. — respondi confusa.

Beijamos-nos por mais alguns minutos. Depois, por mais algumas semanas. E então comecei a sentir medo. “Será que eu sou bi? Ou lésbica?” Eu pensava sozinha. Pesquisava alguns testes na internet, na esperança de receber uma resposta externa. Sem sucesso. E assim, me fiz essa pergunta por alguns dias. Alguns meses. Alguns anos. Esperei uma resposta de fora pra dentro, procurei alguém que pudesse me dizer o que eu era de forma definitiva. Beijei alguns homens, algumas mulheres. Passei uns meses sem beijar ninguém. Transei com alguns poucos homens, algumas mulheres. Decidi me perguntar, na frente do espelho, todo dia, quem eu era. O que eu era. Um dia cansei de procurar resposta. Minha vida seguiu.

– Ei, vamos tomar um café? — Ela me chamou naquele aplicativo de paquera. Que no fundo eu usava como uma ferramenta para encontrar colegas, amigos em potencial. Ou só pra desabafar com estranhos.

Eu aceitei. E fui.

– Não sei se sou bi, se sou lésbica. — avisei a ela, esperando que ela me olhasse com reprovação.

– Mas você ama mulheres? — ela me perguntou.

Acenei que sim. Naquele dia a gente se beijou. E eu voltei pra casa repetindo esse diálogo na minha cabeça. “Eu amo mulheres. Eu amo mulheres. Eu amo mulheres”. Não consegui dormir, lembrando-me de todos os homens que amei por necessidade. De todas as vezes que me senti sozinha ao lado de um homem. De todos os roteiros de romance com mulheres que criei na minha cabeça, enquanto passava meus dias ao lado de alguns homens.

– Sapata! — Repeti no espelho, sorrindo. Enquanto não tinha mais ninguém que pudesse ouvir. Enquanto decidia que mais ninguém me faria beijar um homem pra provar ser o que eu não sou.

Fechei a porta espelhada do armário. Coloquei minha melhor roupa. Bati na porta do quarto da minha mãe. Ela abriu. Eu falei:

– Mãe, eu sou lésbica.

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