Morangos E Chocolate – Camila Cerdeira


Ela vinha andando na direção da saída como quem conta os instantes para deixar a universidade para trás. Eu adorava isso nela, que não importava o que ela pensasse, ela sempre tinha uma cara de alguém contando os segundos para ir embora. Amava como ela ficava linda com o cabelo recém cortado na altura dos ombros, o que a deixava com um ar sofisticado e mesmo assim ela sempre topava ir nos botecos mais derrubados que eu conhecia, beber cerveja barata e sentar em cadeiras de plástico empoeiradas.

Ela estava tão distraída com os fones que não me ouviu chamar por ela. E eu precisei dar uma corrida para até alcançá-la.

– Nossa, garota, quer me matar do coração? — Ela falou se recuperando do susto que levou quando minha mão tocou no ombro dela.

– Calma, se você não estivesse tão vidrada nas tuas músicas ia ter me ouvido chamar. Tá escutando o que?

– Kodaline, mas o que tu tá fazendo aqui?

– Eu falei que ia vir te ver.

– Eu achei que tava brincando.

– Eu nunca brinco quando se trata de você. — Ela não respondeu nada, mas eu percebi que tinha deixado ela desconcertada de novo, isso parecia uma constante entre nós duas. — Eu só queria te dar esses morangos.

– Uau, você quem fez?

– Foi, mas besteira é super fácil de fazer e pensei que você ia gostar.

– Morango é minha fruta favorita.

– É, eu lembrava disso. Enfim aqui. — Estiquei a mão dando a caixa com os morangos

Ela segurou a caixa nas mãos e ficamos em silêncio mais do que parecia correto, às vezes eu odiava como falar com ela online parecia mais natural do que falar pessoalmente, como se meu cérebro simplesmente desligasse toda vez que eu encarava seus olhos cor de mel. Eu perdia todo meu traquejo social perto dela, não que fosse algo muito incrível, mas no geral eu sabia completar mais do que três frases.

– Você vai embora como? — Duda me perguntou

– De ônibus — Falei colocando as mãos no bolso do moletom que estava usando.

– Okay, vem comigo.

– Para onde? — Falei me mantendo no mesmo lugar enquanto Duda cruzava por mim

– Não sei, para algum lugar e depois eu te deixo em casa. Agora vem. — Ela puxou o capuz do moletom me fazendo rir.

– Você que manda.

O carro dela era uma completa bagunça tinha 3 camisetas jogadas no banco de trás, um tênis de corrida, uma havaiana e mais uma rasteirinha de couro que honestamente eu nunca tinha visto ela usar antes e a gente se conhece há 4 anos. Algumas embalagens de fast food entregaram que ela não devia comer comida caseira com essa frequência toda. Sentamos em silêncio ainda, ela ligou o som e começou a tomar uma voz de branco sofrida, que até soava legal.

– Isso que tá tocando é o tal do Kodaline?

– É, tu nunca ouviu?

– Branco sofrido não é exatamente o gênero que eu escuto com mais frequência. — Ela riu. Uma risada gostosa que me fazia querer continuar contando um mundo de piadas. Mesmo eu não sabendo nenhum e sendo péssima em contá-las.

– Então quer que eu mude para algo mais próximo do que você escuta?

– Precisa não, até gostei.

– Pra um branco sofrendo?

– Tipo isso, fora que parece estranho ficar sentado num carro ouvindo funk.

– Tu só escuta funk? — Ela tinha começado a manobrar o carro para sair do estacionamento da universidade. Aquilo parecia um labirinto mesmo sem as paredes. Eu nunca me acharia ali sozinha.

– Não, é o que eu tenho mais escutado, principalmente quando eu saio com os meninos. Então é meio Pabllo Vittar, Gloria Groove, Ludmilla, Iza, Lia Clark é sempre nessa linha.

– Quando você tá em casa pra relaxar, escuta o que?

– Promete não rir?

– Prometo. — Ela fez um xis cruzando os dedos no coração.

– Eu escuto as músicas de Hora da Aventura e Steven Universe

– Eu nunca ia imaginar que tu curtia desenho.

– Por que eu tenho cara de marrenta que odeia todo mundo ninguém espera que eu goste de coisas fofas.

– Só de garotas fofas. — Duda apontou pra si mesma. — O que honestamente é muito bom gosto da sua parte, Elisa.

– Eu também acho, meu gosto pra mulheres é minha melhor característica. — Os olhos dela encontraram com os meus e naquele instante nada mais importou.

– O que você acha de comer algo. — Ela fala afastando o rosto de mim, às vezes parecia que ela fugia e eu não entendia o que tinha feito errado. Era difícil ligar os sinais quando metade do meu cérebro não funcionava por que ela sorriu para mim.

– Pode ser. — Falei suspirando. — O que você tem em mente.

– Na verdade eu não sei.

– Posso perguntar algo sério?

– O que quer que seja não fui eu. — Ela riu. Tinha essa mania de responder isso sempre que perguntavam algo. — Você ainda quer ter algo comigo?

– Elisa…

– Olha eu não quero te dar um ultimato, não é isso. Eu gosto de você e algumas vezes parece que você quer que eu não goste. Se você não estiver gostando de mim ou estiver interessada em outra pessoa, tudo bem. A gente era amiga ou eu pensava em você como uma amiga antes de tudo isso. Então a gente pode continuar sendo amigas. Ou se você quer algo só precisa que tudo vá aos poucos, tudo bem também, eu te falei que sou capaz de ser paciente. Mas eu preciso saber qual dos dois está acontecendo ou se é uma terceira opção que eu não sei por que sou meio lenta nessas coisas.

– Não é isso. — Ela disse sem tirar o olho da estrada ou parecer querer desenvolver a frase.

– Eu preciso de um pouco mais do que isso.

– Eu não entendo por que você gosta de mim.

– Você já se olhou no espelho? Não que eu seja superficial, mas eu também não sou cega né.

– Mas eu não tô valendo todo esse esforço. Tu saiu de casa, gastou dinheiro só pra vir deixar uma caixa de morangos cobertos de chocolate que tu fez sozinha. Eu às vezes esqueço e fico dois dias ou mais sem responder tuas mensagens.

– Você tem o seu jeito, eu tenho o meu.

– Você não se cansa de mim? Eu mal me aguento.

– Você se cansa do meu jeito?

– Como assim?

– Honestamente eu sou exaustiva, eu não espero você responder nunca, então se eu tenho algo que eu quero te falar te mandando mensagem em cima de mensagem e quando você vem dois dias depois responder tem 40 mensagens de 40 assuntos diferentes pra responder o que é irritante para caramba. E ainda assim você responde tudo.

– Mas…

– Eu sou intensa okay, eu sempre fui. Sou aquela que se apaixona antes de beijar alguém e que geralmente se ferra muito por isso. Você é o oposto, você parece que coloca freios em tudo e não deixa que faça disso uma batida desenfreada e eu adoro isso.

– Então o meu jeito frio não é algo ruim?

– O meu jeito esquentado é?

– Não!

– Exato, a gente se equilibra. Eu sei que você não é de ficar elogiando loucamente feito eu. Mas você sempre escuta e tem usado aquele emoji fofinho de coração, pode parecer coisa pouca, mas eu achei significativo vindo de ti. Eu adoro teu jeito e não tô cansada dele. — O carro parou no sinal, mas o engarrafamento parecia que ia nos deixar presas por mais tempo ainda. — Pelo contrário é o que me faz gostar cada vez mais de ti.

– Eu ser fria? — Mesmo estando com o carro parado ela continuava sem me olhar nos olhos.

– Você não é fria.

– Mas eu não sou como você.

– Que bom, eu teria que ser muito egocêntrica para namorar com alguém que fosse igual a mim.

– Você vai cansar de mim.

– O risco de eu cansar de você é o mesmo de você cansar de mim. E certo, ele existe e ele assusta o inferno de mim. Mas ao mesmo tempo você ser você me faz querer correr esse risco de qualquer jeito.

– Eu nunca namorei antes.

– Todo namoro é uma nova experiência.

– Eu posso continuar criando desculpas.

– E eu vou continuar achando soluções. A única coisa que vai me fazer parar é você falar que não quer nada comigo. Que não sente mais nada. Do contrário eu espero. Quando eu te falei que era paciente eu falava sério, se eu tiver que esperar meses para finalmente você se sentir confortável para me beijar eu espero.

– Com licença. — Duda falou puxando meus óculos.

– Ei, eu não enxergo sem eles.

– Você não vai precisar. — Ela se inclinou para me beijar, seus lábios eram macios com um leve gosto de bala de cereja. Seria poético dizer que perdemos a noção do tempo nos beijando no meio do engarrafamento com as luzes da cidade brilhando. Mas a verdade é que logo ouvimos buzinas que denunciaram que o sinal abrira e estávamos atrapalhando o trânsito. As pessoas não deixam nem um casal ser romântico no primeiro beijo. — Acho que isso significa que estamos bem?

– Isso significa que agora você tem uma namorada.

– Nada disso.

– Amada?

– Eu só namoro quando ou eu peço alguém em namoro ou alguém me pedi em namoro e não vi nada disso acontecer. O jogo virou, é sua vez de esperar.

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